quarta-feira, 2 de março de 2016

Conto de Luís da Câmara Cascudo de Rosângela Maria Silva

Cordel retirado de:

http://www.mundojovem.com.br/poesias-poemas/cordel/conto-de-luis-da-camara-cascudo

Luis da Câmara Cascudo
Folclorista popular
Um famoso escritor
Costumava nos contar
A história de um vaqueiro
Que provou a verdade falar.
Eram dois grandes amigos
Fazendeiros e compadres
Mas um invejava o outro
E lhe tinha má vontade
Até desejava o mal
Um homem sem piedade.
Na fazenda do compadre
Tinha uma rês espetacular
Chamado de boi Leição
Que era a flor do curral
Animal de estimação
De muito se admirar.
Os vizinhos e compadres
Viviam a conversar
Toda tarde numa fazenda
Um ao outro ia visitar
E que vaqueiro não mentia
Um disse não acreditar.
O bom patrão do vaqueiro
Propôs um trato fazer
Registraram com a garantia
Da verdade o vaqueiro dizer
Independente da notícia
Que ele viesse trazer.
O compadre duvidou
Daquela afirmação
E junto com sua filha
Preparou uma armação
Para o vaqueiro mentir
E matar o boi Leição.
A filha do fazendeiro
Mentiu que se apaixonou
E logo com o vaqueiro
Que o namoro topou
Foi morar na casa dele
Onde a armadilha começou.
Passaram-se alguns dias
Ao vaqueiro em confissão
Disse-lhe a sua amada
Fingindo uma aflição
-Desejo agora comer
O fígado do boi Leição.
O coitado do vaqueiro:
-Isso eu não posso fazer!
Peça-me o que quiser
Que eu faço para você
Mas o "figo" do boi Leição
Isso você não vai ter.
Mas um homem apaixonado
Para agradar sua amada
Desagrada qualquer um
E numa bela caçada
Derrubou o boi Leição
Com uma forte machadada.
Como esse era o plano
Por pai e filha montado
Para o vaqueiro mentir
Ao ver o boi derrubado
Correu pra casa do pai
Estava tudo acabado.
Ao chegar à sua casa
Ao pai contou o ocorrido
Que a rês de estimação
Do compadre tinha morrido
E que a tragédia foi causada
Pelo vaqueiro seu marido.
Seu pai muito satisfeito
Com a tragédia prevista
Pegou o cavalo e correu
Contente e feliz da vida
Para contar ao compadre
Sua aposta estava perdida.
O fazendeiro invejoso
Estava crente que ganhava
A aposta de seu compadre
Pensando que em sua fala
O vaqueiro ia mentir
A verdade lhe faltava.
Mas o patrão do vaqueiro
Nele muito confiava
E mesmo sabendo da morte
Do boi que mais estimava
Ratificou que o vaqueiro
Toda a verdade falava.
O funcionário até pensou
Em uma história inventar
Mas disse que cabra homem
Não mente nem pra enricar
E que diria só a verdade
Na história que ia contar.
E ao chegar logo em frente
À casa de seu patrão
Sem conhecer da aposta
Viu aquela multidão
Pois todos queriam ver
Se ele mentia ou não.
Ele começou sua fala
Respondendo a seu patrão
Que perguntara pra ele
Como deixou seu torrão.
E anunciou a desgraça
Naquela ocasião.
Vindo eu uma boa tarde
Duma bonita vaquejada
Chegando à minha porta
Vi uma "pilingrina" assentada
No passar do meu batente
Vindo de sua casa expulsada.
Deixou-me hipnotizado
Caído em sua tentação.
A beleza de seu rosto,
Palpitou-me o coração
Porém o que eu não sabia
Que trazia uma maldição.
Para entrar em minha casa
Convidei-a com atenção
E depois de alguns dias
Nasceu ali uma paixão.
E a pedido dessa moça
Eu matei o boi Leição!
Todos ali aplaudiram
Aquele herói cidadão
Que manteve sua verdade
Independente da situação
Sem saber daquela aposta
Ajudou a seu patrão.
O patrão muito bondoso
Só quis metade dos bens
Do seu vizinho invejoso
Não ficou com um vintém
A outra metade da riqueza
É o vaqueiro quem tem.
E daquele dia em diante
Mesmo depois da tragédia
O vaqueiro e sua amante
Decidiram por as rédeas
Formaram uma família
Parecendo uma comédia.
Foi assim que terminou
Essa história diferente
Pois nos casos hoje em dia
A maioria só mente.
Falar somente a verdade
É coisa de antigamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário